(Resenha: A Europa antes e depois de Bismarck)
Com o desgaste do Sistema de Metternich, a política internacional ganhou um novo feitio. A raison d´etat do Cardeal Richelieu perdeu lugar para o termo alemão Realpolitik, elaborado por Otto Von Bismarck, usado para designar a política sem restrições de equilíbrio de poder, em que nas relações entre os países, o poder bruto dita as regras. A moralidade ditada pelo Sistema de Metternich e o conceito de que os Estados se aproximavam graças à congruência de opiniões entre os líderes, perderam importância após a Guerra da Criméia. Dentro de tal contexto, os franceses perderam sua posição de importância para a Alemanha. O papel da França foi essencial para a concretização de tais acontecimentos. A França esteve ao lado do nacionalismo italiano enquanto este se manifestou no norte da Itália, guerreando com a Áustria, em 1859. Esperava-se que a Itália seria um país forte no futuro. Em troca da unificação italiana, receberiam como recompensa Nice e Savóia. A Inglaterra considerou tais anexações francesas ao fim do conflito um recomeço de conquistas napoleônicas e não apoiou as iniciativas de Napoleão para estabelecer um Congresso Europeu. A Prússia soube aproveitar tal desordem européia para iniciar planos concretos de unificação, Bismarck considerava que a Guerra enfraqueceria o papel da Áustria na Alemanha. Além disso, o Imperador tentou convencer a Rússia a conceder o reivindicado pelos rebeldes poloneses, o que foi rejeitado. Então, apoiou a Revolução Polonesa, causando mal-estar com o Tzar, desistindo somente quando isso representou perigo para a França. A Guerra Austro-Prussiana foi estimulada pela França, que estava certa da derrota da Prússia. Permanecendo neutra, esperava os “prêmios” que receberia da Prússia em troca, como a aceitação da conquista francesa da Bélgica. Com a vitória prussiana, restou ao país o papel de mediador. Logo depois, Napoleão provocou o rei prussiano pedindo garantias de que o trono espanhol não seria ocupado por sua dinastia, Rei Guilherme, negou-se. Através das alterações feitas por Bismarck nos despachos do Rei, a opinião pública francesa pressionou para que a Guerra Franco-Prussiana acontecesse. Com a ajuda dos demais Estados da Alemanha, os prussianos venceram. A anexação alemã do território da Alsácia-Lorena, contribuiu para o sentimento do revanchismo francês, concretizado na Primeira Guerra Mundial. Assim, a política confusa, sem objetivos concretos de Napoleão, que causou tumulto na Europa, criou o ambiente para tais anexações.
Bismarck soube aproveitar genialmente as oportunidades que pudessem fortalecer o papel da Prússia na Alemanha e manipulou da mesma forma seus adversários. O Sistema de Metternich havia prejudicado o projeto de unificação alemã da Prússia, visto que preservou o papel dos inúmeros pequenos soberanos alemães na Confederação Germânica. Antes de Bismarck, pensava-se que a unificação alemã só ocorreria através do parlamento e constitucionalmente. A Confederação Germânica só agia em conjunto quando havia uma ameaça externa, como por exemplo, a ambição da França. A postura da Prússia, principalmente durante a Guerra da Criméia, reforçava a convicção de Napoleão de que essa era realmente fraca e incapaz de grandes ações. Durante a Guerra entre a França e a Áustria, criou-se um sentimento antifrancês muito intenso, que a Prússia soube tirar proveito para a união. Além disso, quanto maior era o temor em relação à França por parte dos austríacos, mais vantagens e concessões a Prússia adquiria da Áustria. A Prússia e a Áustria se uniram contra a França, diante da ameaça em relação aos ducados de Elbe de Schleswig e Holstein, que possuíam vínculos com a Dinamarca e eram membros da Confederação. Com a morte do governante e a inação da França, resolveram as questões em relação aos ducados e ocuparam Schleswig-Holstein. Contudo, Bismarck era ambicioso e não queria dividir o poder na Alemanha. Então, travou-se a Guerra Austro-Prussiana, a qual a Prússia venceu com facilidade. No Tratado de Praga de Agosto de 1866, a Áustria teve que se retirar da Alemanha. Dois Estados austríacos foram anexados pela Prússia e Frankfurt. O sucesso militar da Prússia e outros Estados durante a Guerra Austro-Prussiana, deve-se, em grande parte, aos detalhados planos militares antecedentes à guerra, ao crescimento político e econômico. Tal crescimento foi proporcionado pela expansão industrial, facilitada pela produção de carvão, principalmente, ferro, proveniente de territórios como Lorena; sem perder de vista o desenvolvimento da indústria química. Com a unificação do território, os entraves ao comércio entre os Estados foram removidos, possibilitando, após a Guerra, uma explosão de investimentos. O poder da Alemanha fundamentava-se em sua indústria e população. A mão-de-obra crescente nas cidades possibilitava a expansão do proletariado. As áreas industriais desenvolveram-se, podendo destacar as fábricas de armamento localizadas em Ruhr, região de importância até os dias de hoje. A vitória militar prussiana foi possibilitada, dentre outros fatores, à adoção do serviço militar obrigatório, o que possibilitou uma força mais potente.Em oposição aos princípios liberais, um rei prussiano foi coroado ao final do processo de unificação. O Estado adotou o sufrágio universal na eleição do Parlamento Imperial, que efetivamente não controlava o executivo, dando uma impressão de falsa democracia. Além disso, Bismarck retirou o exército da influência do Parlamento, limitando o controle orçamentário desse. Reforçando, com tais medidas, que a Alemanha não era um Estado liberal. Após o sucesso do projeto de unificação, a política externa de Bismarck passou por uma mudança significativa. Essa, assumiu uma posição de isolamento aparente, podendo, assim, vender seu apoio aos outros países; seus verdadeiros interesses limitavam-se às fronteiras alemães. Assim, sua política externa nos anos seguintes foi prudente e estabilizadora. Diante de tais indícios de poder, tanto militares quanto econômicos, apesar da falta de participação popular interna, a Alemanha conservadora, até 1890, possibilitou a preservação da paz no continente. O grande erro de Bismarck, contudo, foi que seus feitos não puderam ser absorvidos pela sociedade como um todo; como o próprio Kissinger diz: “sua grandeza era inassimilável”.
O Risorgimento italiano teve como líderes Cavour, Garibaldi e Mazzini, que contribuíram para a unificação de diferentes formas. Cavour, ministro do Rei, expulsou a Áustria da Lombardia; Garibaldi derrubou os Bourbons em Nápoles e reuniu os Estados centrais em um novo reino. Na vitória prussiana contra a Áustria adquiriram Veneza. O ultimo grande desafio italiano era a cidade de Roma, sob a soberania do Papa. Assim, com a derrota francesa pelos prussianos, as tropas italianas ganharam a cidade, sendo a questão resolvida quando o Vaticano tornou-se um Estado independente de soberania da Igreja, em 1929. Apesar do desejo expansionista herdado do Império Romano e o status adquirido com a conquista de Roma, faltaram os recursos financeiros e militares para concretizar um sonho de grandeza. Além disso, a falta de matérias-primas restringiu o desenvolvimento industrial do país, sem esquecer da dicotomia entre norte e sul, um norte em que: a indústria se expandia, a agricultura era rica e os métodos agrícolas modernos; contrastando com o sul: muito pobre,que sofria com a concorrência nortista. Diante de tal divisão, era impossível o estabelecimento de um sistema político coerente no país.
Assim, a unificação alemã e italiana afetou de diversas formas a balança de poder da Europa. A Áustria perdeu territórios de imensa importância, enfraquecendo-se. Buscou a aproximação com a Hungria, formando uma Monarquia Dual: Império Austro-Húngaro. Era um país muito diversificado: várias raças e diversos níveis de desenvolvimento econômico. Além disso, diversos movimentos e idéias estavam surgindo em Viena, como o ideal de “auto-determinação” nacional. O nacionalismo foi o causador da Revolta Grega, da Restauração da Polônia, revoltas no Império Otomano, etc. Na Irlanda, as forças nacionalistas se indispunham no Parlamento, o que causou uma descentralização do Reino Unido e ameaça de guerra civil. A Inglaterra, por sua vez, possuía como prioridades de sua política externa a manutenção da neutralidade belga, a proteção das fronteiras da Índia e de suas rotas. Durante o período, somente a Rússia representou perigo aos ingleses por questões de rotas para a Índia e ambições na China, e antes disso, a Guerra da Criméia. A Rússia estava isolada do Ocidente como a Espanha, e diferenciava-se enormemente da Europa na sua estrutura hierárquica e exclusão de idéias ocidentais, apesar dos progressos industriais, do exército e outros. Durante a Terceira República, que refletiu o conservadorismo da sociedade francesa, esta pôde superar as perdas materiais e se recuperar da humilhação que sofreu; além da recuperação militar. Demonstrou-se como berço da cultura ocidental e, retomou seu lugar de potência. Uma vez que a idéia de auto-determinação nacional foi aceita como base da organização internacional, pequenos Estados puderam ser autônomos, causando diferenças na balança de poder e dando-lhes uma importância não justificável, como afirmou James Joll em certo trecho de seu livro.